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Ago 04
Outro dia, na casa de um amigo, senti aquela desagradável sensação no seio da face, anunciando um espirro. No meu caso, nunca é só um espirro, é sempre uma crise de seis, oito, às vezes mais. Algo que comumente irrita o meu interlocutor e a mim mesmo, talvez porque isto quase sempre aconteça quando o assunto é importante. Naquele dia, como em tantos outros, tapei as narinas com força, fechei a boca e prendi o infeliz. Foi então que o meu amigo quase brigou comigo, disse que aquilo era perigoso, que podia estourar uma veio do rosto, do pescoço, ou, quem sabe, de lugares, digamos, mais delicados. Até aí, tudo bem, já tinha escutado isso um monte de vezes. As pessoas – provavelmente as que não espirram -, são divulgadoras incansáveis destes mitos. Mas ele foi além, e disse que espirrar é bom para saúde e que, para o organismo humano, o espirro eqüivale a um orgasmo.

A crise desapareceu instantaneamente. Olhei demoradamente pra ele, tentando descobrir em seu rosto qualquer vestígio de gozar a situação. Ao contrário, ele começou a discorrer seriamente sobre o que chamou de “teoria cientificamente comprovada”. Tentei argumentar que talvez existissem exceções, e que eu fosse uma delas, porque no meu caso, podia garantir que não havia como relacionar uma coisa e outra. Mas ele não me ouvia e seguia, infrene, falando sobre coisas como terminações nervosas, descargas elétricas, fio terra e outras correlatas.

Parei para refletir sobre as vantagens e desvantagens deste - se for verdade - fato científico. A igreja resolveria o problema da contestação ao celibato. Os idosos e os impotentes já não dependeriam do viagra. Os solteirões convictos e os eremitas estariam muito bem sozinhos. Os homens e mulheres sexualmente insatisfeitos já não brigariam mais com seu cônjuges. Pra todos esses, uma dose diária de rapé controlada por um médico responsável resolveria o problema. Aliás, a indústria do rapé cresceria assustadoramente, seria construído um pólo, financiado pelo governo, que empregaria milhares de pessoas. Haveria, é claro, o contrabando e a falsificação do produto, mas tudo bem, a gente já se acostumou com essas coisas. Haveria também os viciados no pozinho do prazer, e cresceria o número de clínicas e médicos especializados no assunto. Para a economia, nada melhor.

Estaria finalmente esclarecido porque quando alguém não consegue namorar ninguém as pessoas dizem que “não apanha nem gripe”. E talvez o “saúde!” após um espirro passasse a significar um reconhecimento ao invés de um desejo. Poderíamos, então, revolucionar as saudações. Ao invés de desejar paz, saúde e prosperidade, seria paz, gripe e prosperidade. Diante de alguém com uma crise de espirro, ao invés de “melhoras”, diríamos: “não, sou casado!”. Willhem Reich levantaria do túmulo para reescrever seu “a função do orgasmo” e o transformaria em algo do tipo “a função do orgasmo e, na falta deste, do espirro”. Haveria impacto nas relações de trabalho. Se um chefe espirrasse durante uma conversa com a funcionária, poderia ser indiciado por assédio sexual, ou, quem sabe, por relações impróprias. O controle da natalidade teria um forte aliado. Seria o fim da vacina contra a gripe, mas, rapidamente, os laboratórios a substituiriam pela gripe em injeção, gripe em comprimidos, gotas, gel, etc. O cidadão está no sufoco, vai lá, faz uma nebulização e tudo bem, satisfação garantida ou o dinheiro de volta. Seria o fim da indústria da pornografia, do turismo sexual e da prostituição. Tudo seria substituído pelo rapé de boa ou má qualidade. Os melhores provocariam espirros mais fortes.

Meus pensamentos começaram a me dar dor de cabeça. Pedi licença e saí da sala para respirar um pouco e tomar um analgésico, não sem um certo receio da combinação espirro – cefaléia.
publicado por sorraia.blog às 03:21

A pocilga moderna aprendeu cuidadosamente a certificar o homem. Cientificamente, os tratados buscavam esquematizar a existência e os atributos morais em conceitos previamente estabelecidos, talvez por qualquer louco antecipadamente empírico, o homem foi bom naturalmente, a sociedade malévola – faz-se um esforço para entendê-la abstratamente - ou, sob determinadas circunstâncias, o homem é um ser vil que deve ser encarcerado, ou com um pouco de mitologia e uma pitada de Marx e Freud, o homem segue uma pulsão de morte ditada pela sociedade.

Qualquer especulação moderna por excelência que recupere a tradição de tirar a cabeça do corpo segue o principio pré-estabelecido do sujeito que entendeu como uma proposição universal, mas que só tem fundamento em si mesmo, numa analise pessoal e sincera de sua neurose. Falta aos estudiosos, cuja pretensão fala por si, que estudem o homem como uma possibilidade, não sendo mau, nem naturalmente bom; a possibilidade seria como educá-los através da virtude, o questionamento socrático evidenciado no Mênon de Platão.

Educar para a virtude significa que os estudiosos esquecerão definitivamente de operacionalizar os vícios humanos através de programas sociais, incentivos à educação nacional, abandonarão seus trabalhos sobre demolição da linguagem e sua pedagogia do oprimido. O mote é claro: não se faz homens maduros reconstruindo sua natureza, primeiro permite-se entendê-la como seja, como o homem pode ser ensinado para que ele seja um reflexo para a sociedade e Estado. Reconstrução da alma humana é perversão de poder, subterfúgio que se usa para conquistar, através da analise da crise, um meio para dominação do espírito e a instrumentalização das paixões; menina dos olhos dos Estados totalitários. Qualquer excrescência do tipo deve ser abolida em prol da boa tradição clássica que preserva o primado da individualidade humana, observa o homem como uma totalidade e o coloca não como centro principal de utopias, mas como modelo para uma educação voltada para o aperfeiçoamento das virtudes.

Para tanto uma leitura das obras clássicas de Platão e Aristóteles é imprescindível e que, posteriormente, não se esqueça da vivência que destas se apreende. Parece-me que os clássicos aprenderam antigamente com os sofistas do seu tempo o que estamos repetindo atualmente: não retirar a cabeça do corpo e saber que discurso pré-fabricado transforma homens em bom administradores de pocilga.
publicado por sorraia.blog às 03:19

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Actores e Personagens...

Ann Margret: Miss Walker
Oliver Reed: Frank
Roger Daltrey: Tommy
Eric Clapton: Padre
John Entwistle: Ele mesmo
Pete Townshend: Narrador
Paul Nicholas: Primo Kevin
Tina Turner: Acid Queen
Keith Moon: Tio Ernie
Elton John: Pinball Wizard
Jack Nicholson: Doutor
Robert Powell: Capitain Walker

Homenagem dos "Simpsons" aos The Who...
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publicado por sorraia.blog às 03:05

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